Renato Roseno: o advogado insurgente e socialista
A equipe do O Estado chegou à sede do Partido Socialismo e Liberdade (PSol) para conversar com o representante da sigla nas eleições deste ano, Renato Roseno, e encontrou um candidato numa sala pequena e sentado atrás de uma mesinha com blocos de anotação, um calendário, um computador e um jornal amarelo com o símbolo e o número da sigla.
De camiseta amarela, um jeans básico, relógio esportivo e sapatos combinando com a camisa, ele esperava pela reportagem vindo de uma atividade de campanha realizada às 6h 30min em frente a uma fábrica. Nas apresentações habituais, disse já conhecer o “homem da máquina fotográfica” e deu boas vindas ao “homem responsável pelo texto” que estava ali pela primeira vez.
» Família de migrante. Bate-papo iniciado, Renato se dirigiu às fases da infância que o marcaram e influíram diretamente no modo de encarar o mundo hoje. E a história de vida dos pais foi o pontapé inicial com o roteiro já conhecido de êxodo nordestino para São Paulo, onde Roseno nasceu e morou por alguns anos ao lado dos dois irmãos mais novos antes de chegar em Fortaleza aos nove.
Apesar de se classificar como típico filho da migração nordestina, ele disse não gostar de enquadrar a história dos pais no discurso de pessoas que não deram certo no Sul e fazer drama em cima disso. Só de falar no assunto, ele se remexeu na cadeira, afirmando: “não vou falsificar uma pobreza que não vivi na carne, cara! Não faço isso e sou contra quem faz”.
A infância e a adolescência, ele assumiu, foram confortáveis sim, “apesar de a adolescência ter sido melhor”. E aí, ele aumentou o tom para ressaltar que jamais vai afirmar ter nascido debaixo de barraco nem declarar que passou fome só para mexer com o emocional da população.
Puxando pela memória, o hoje candidato a prefeito lembrou de alguns “momentos paulistanos”: da casa onde nasceu, em Interlagos (SP); das várias mudanças de endereço que teve de enfrentar; e de pontuais dificuldades enfrentadas para os pais o manterem como estudante de escola particular, o que lhe proporcionou o ingresso na UFC e a conquista do título de advogado.
» Reservas sim, mas com orgulho. A família, no entanto, foi um setor que ele admitiu preferir deixar numa espécie de anonimato para que público e privado não se misturem nem soem como estratégia apelativa de político.
Contudo, e com um sorriso tímido no rosto se mostrando comedido, Renato deixou escapar que os pais sentem sim orgulho do trabalho que realiza. “Mas não estão no dia-a-dia da campanha, por exemplo. Eu vou mais ao encontro deles pelo menos uma vez por semana do que eles a mim. Minha família é bacana e tem figuras legais”, referiu, assistindo uma colaboradora do Partido entrar na sala e oferecer café e banana e mamão com mel.
Entre uma garfada e outra, o magistrado lamentou não ter mais tempo para se dedicar à vida pessoal como fazia há até pouco tempo.
Motivo: a própria política, que, nesse ano eleitoral, tem tomado de conta de toda a agenda do socialista e o impedido de ministrar as palestras habituais sobre direitos humanos.
Partindo disso, ele frisou: “dentro de um contexto de auto-educação, é essencial buscar aprender sempre, seja como cidadão, seja como profissional. O importante é nunca perder a vontade de evoluir como gente”.
» Adjetivando a imagem. Em seguida, Renato elencou três características que, segundo disse, o refletem bem: insurgente, inquieto e transgressor. O primeiro, devido à rebeldia de não se conformar com o sistema capitalista que, para ele, emburrece as pessoas e usa e oprime os jovens; e o segundo e o terceiro porque considera essencial o não-conformismo para que alguma mudança venha a acontecer de fato com o intuito de mudar o que está (im) posto.
Para isso, ele garantiu, não é preciso ser intelectual, característica na qual negou se encaixar. “Intelectual? Eu? Não, não. Eu gosto de ler”, contrapôs, o sorriso no rosto e revelando que pensa em escrever um livro sobre a visão pós-colonialista dos direitos humanos.
» Ídolos. Se o plano de ter uma publicação própria se concretizar, a produção “corre o risco” de ser inspirada por ritmos norte-americanos. Não porque Renato esteja mudando de time e pensando em aderir ao consumismo frenético estadunidense, mas sim pelo fato de ele assumir ser fã de carteirinha de um grupo dos EUA que fez muito sucesso no final dos anos 60 e começo da década de 70: The Doors.
O porquê de justamente uma banda vinda do ícone maior do capitalismo? Roseno explicou. E da forma mais descontraída e diplomática possível. “Eles são apolínio-dionisíacos”, classificou, deixando no rosto do repórter e do fotógrafo uma expressão de indagação, dissipada logo depois, com o complemento da justificativa.
“Pense na força das letras e na percepção da realidade deles. Isso é o deus Apolo. Agora, junte com a festa, a alegria e a celebração da vida. Esse é Dionísio. Eles retratam a beleza e a alegria”, prosseguiu, acrescentando que tem todos os CDs do The Doors em casa e levando mais uma lasca de banana caramelada à boca.
O contraponto da overdose de cultura do Norte, entretanto, veio a seguir, quando Renato citou uma paixão contida (talvez nem tanto!) por Elis Regina, a pimentinha da MPB dita por ele como uma das vozes mais arrebatadoras da história da música. Dentre as interpretações preferidas feitas pela cantora, Roseno não titubeou e falou logo, com o queixo apoiado pela mão esquerda e os olhos semicerrados: “Atrás da porta” e “Cais”.
Porém, além dos elogios à pimenta, o socialista cantarolou ainda versos de Los Hermanos, grupo descoberto por ele há pouco tempo, mas que conseguiu se fixar na lista dos seletos a tocar no som do carro. “Todo dia, o ninguém José acorda já deitado. Todo dia, o Zé dorme já acordado”, recitou, com o dedo fazendo giros no ar e a afinação tentando ser mantida. Ao mesmo passo, Renato comentou que as letras da banda brasileira indicam a estética urbana do sentimento humano, a subjetividade, a anestesia, a alienação.
» Saudosismo de uma Fortaleza atrevida. Mas essa estética urbana não foi abordada apenas do ponto de vista positivo. De certa forma, Roseno a condenou sob a justificativa de que o sistema assola a Fortaleza de hoje.
Nesse tocante, a nostalgia da capital do ano de 89 - quando a vida política teve início, ele tinha apenas 14 anos e era estudante secundarista -, surgiu na conversa do advogado com o jornalista e o fotógrafo. A voz mansa era a cópia fiel disso. “Prefiro a Fortaleza daquela época, porque era mais humana nas relações entre as pessoas, mais atrevida e menos “fake” com essa elite destrutiva e cafona”, alfinetou.
Nessa hora, os pratos com as rodelas de banana e mamão já estavam vazios. Porém, a conversa prosseguia e Renato, com o sorriso no rosto, lembrava desse ingresso na política; das articulações que encabeçou como universitário; dos pedidos de voto feitos na época em que Lula se candidatou a presidente pela primeira vez; da aproximação com o PT e dos gritos de palavras de ordem no impeachment de Fernando Collor de Melo, em 1992.
» Encruzilhada. Elencados todos esses anos, Renato tocou numa preocupação que disse ter com os rumos do País. De testa franzida, ele comentou que essa “aflição” não tinha como cerne apenas as movimentações eleitorais, mas uma mudança que ele considerou necessária do ponto de vista da responsabilidade sócio-ambiental. “Não sou careta, mas acho que as pessoas levam o eu muito a sério. Tudo vai depender do que for definido agora para não degradarmos mais as áreas verdes nem termos milhares de jovens sendo mortos. Isso me atravessa como ser humano. Precisamos criar uma cultura menos machista, menos desigual e menos adultocêntrica”, destacou.
Com esse pensamento, não tardou também para um elenco de grandes marxistas contemporâneos ser referenciado, como Michael Levi e Daniel Bensaid. Da mesma forma, a reverência aos pensadores brasileiros Florestan Fernandes e Antônio Cândido. Tudo isso para dizer que as pessoas precisam recusar a injustiça, resistir ao processo que gera essa injustiça e lutar para que os aspectos negativos da sociedade sejam modificados. “As pessoas não podem achar que a vida sofrida é natural. Quem é pobre tem que entender porque é pobre”, filosofou, levando a equipe até o portão da frente da sede do PSOL e voltando para a sala pequena, onde ficaria novamente atrás de uma mesinha com blocos de anotação, um calendário, um computador e um jornal amarelo com o símbolo e o número da sigla.
» Serviço: Na edição desta sexta-feira, a série especial com os candidatos a prefeito continua com o cidadão Adahil Barreto. Ele participa da disputa municipal pelo Partido da República e apareceu nas pesquisas oscilando entre quarto e quinto lugar, com cerca de 1% da preferência do eleitorado.
Por Bruno de Castro



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Comentários (1 postado):
pois isso e muito importante; e tem influencia na minha escolha eleitoral?
pois busco hoje uma conduta de retidao em todos os sentidos.
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